Os números
Distribuição do tráfego de referência vindo de motores de IA em 2026:
- ChatGPT: 74,78%
- Gemini: 11,56%
- Perplexity: 7,23%
- Copilot: 3,51%
- Claude: 2,62%
A concentração no ChatGPT é gritante, mas está caindo: era 79,74% em 2025. E cuidado com a leitura fácil de que o ChatGPT está encolhendo. O tráfego absoluto que ele manda para sites cresceu 27% no ano. Ele perdeu participação porque os outros cresceram mais rápido, não porque diminuiu.
Tem uma assimetria interessante nesses dados que merece atenção: o ChatGPT tem cerca de 76,85% de participação de uso, o que bate com sua fatia de referência. Já o Claude aparece com 2,62% de referência tendo uma base de usuários bem menor, o que significa que ele manda proporcionalmente mais gente para fora por usuário. Faz sentido pelo perfil de uso, mais técnico e mais orientado a pesquisa.
Quem está crescendo
As taxas de crescimento ano a ano contam a história melhor que a foto do market share:
- Claude: +320%
- Gemini: +231%
- Copilot: +31%
- ChatGPT: +27%
O Gemini crescendo 231% é o número que mais me chama atenção, e por um motivo estrutural: ele está integrado ao Android, ao Chrome e ao ecossistema Google. Esse crescimento não depende de a pessoa decidir abrir um app novo, o que é a barreira mais difícil de vencer. Se a tendência continuar, a distribuição de 2027 vai ser bem menos concentrada que a de hoje.
Isso tem consequência prática direta: otimizar só para ChatGPT é apostar na foto de hoje. A visibilidade de uma marca varia bastante entre os sistemas, porque cada um usa fontes e critérios diferentes de recuperação. Medir em um só dá uma leitura falsamente tranquila.
A proporção que ninguém cita
Agora o outro lado, e essa parte costuma sumir das apresentações de agência.
O tráfego de motores de IA para sites cresceu 16 vezes entre 2024 e 2026. Impressionante. Só que a base era minúscula: as plataformas de IA representam 0,32% de todo o tráfego web, contra 0,24% em 2025 e 0,02% em 2024. E somando todos os chatbots, eles enviam cerca de 0,29% de todas as referências de busca. O Google segue enviando a esmagadora maioria dos referrals.
As duas coisas são verdade: o canal cresce em ritmo raríssimo e ainda é uma fração pequena do total. Quem só cita o crescimento vende consultoria. Quem só cita a proporção perde o timing.
Tem um detalhe que muda o cálculo, porém. Volume não é a única variável. Tráfego de IA converte substancialmente melhor que a média, com relatos de 4x ou mais em alguns setores, e no varejo americano o tráfego vindo de IA cresceu 393% no primeiro trimestre de 2026 convertendo 42% melhor que o não-IA. Um canal que é 0,3% do volume mas converte várias vezes melhor pesa mais na receita do que na sessão.
Como decidir investimento
O erro que vejo dos dois lados: empresa criando cargo de "especialista em GEO" para um canal que representa 0,3% do tráfego, e empresa ignorando completamente porque o número é pequeno.
O enquadramento que uso com clientes:
Não trate GEO como canal separado com orçamento próprio. Na prática, quase tudo que melhora visibilidade em IA melhora também busca tradicional: HTML servido, entidade bem definida, conteúdo com resposta clara, menção em fonte com autoridade. É o mesmo trabalho com um critério de qualidade a mais.
Meça, mesmo que o volume seja baixo. Sem medição você não vai perceber quando o canal virar relevante para o seu setor, e em alguns ele já é. Custa pouco montar o acompanhamento, e a série histórica só existe se você começar antes de precisar.
Olhe o seu setor, não a média. A média global de 0,32% esconde variação enorme. Em software B2B, ferramenta técnica e serviço profissional, a fatia costuma ser bem maior. Em varejo de conveniência, bem menor.
Priorize por conversão, não por sessão. Se 500 sessões de IA convertem como 2.000 de orgânico, o canal já merece atenção no seu relatório, mesmo parecendo desprezível no gráfico de volume.
O que muda por plataforma
Otimizar para "IA" como se fosse uma coisa só é o erro mais comum. Cada sistema recupera fonte de um jeito, e a visibilidade de uma marca varia bastante entre eles.
ChatGPT. Maior volume e maior variação entre modos. A busca com citação depende do índice próprio da OpenAI, alimentado pelo OAI-SearchBot. Se esse bot está bloqueado no seu site, você fica de fora do canal que mais manda tráfego, independentemente da qualidade do conteúdo.
Gemini. Crescimento de 231% e integração com o ecossistema Google. Na prática, quem vai bem na busca tradicional tende a ir bem aqui, porque a base de recuperação tem sobreposição grande com o índice do Google. É a plataforma em que o SEO clássico mais se converte diretamente.
Perplexity. Menor volume, mas com perfil de usuário que pesquisa a fundo e clica mais. Cita fonte de forma bem visível, o que dá retorno de marca acima do que o volume sugere.
Claude. Base menor e referência proporcionalmente alta, o que indica usuário que sai da conversa para a fonte com mais frequência. Perfil mais técnico.
Copilot. Crescimento mais lento, distribuição via Windows e Office. Relevante para B2B e para nicho corporativo.
Consequência prática: meça em pelo menos três plataformas. Um cliente que eu acompanhava aparecia em 60% das consultas no Perplexity e em 5% no ChatGPT. A causa era simples e técnica: uma regra de WAF bloqueando o OAI-SearchBot havia quatro meses.
Calculando se vale para você
Em vez de decidir por percepção, dá para fazer uma conta grosseira que já orienta bem. Os números que você precisa:
- Sessões de origem de IA por mês, do canal customizado no GA4, conforme rastrear tráfego de IA no GA4.
- Taxa de conversão dessas sessões, comparada com a taxa do orgânico.
- Valor médio da conversão.
- Crescimento mês a mês do canal nos últimos seis meses.
Com isso você calcula a receita atual do canal e a projeção simples mantendo a taxa de crescimento. Se o canal está em 0,5% da receita e crescendo 15% ao mês, ele chega a algo entre 2% e 3% em um ano, o que já justifica atenção estruturada. Se está em 0,05% e crescendo 2%, não justifica reorganizar prioridade nenhuma.
O ponto é que essa conta é específica do seu negócio, e a média global de 0,32% não diz nada sobre ela. Setores técnicos, B2B e serviços profissionais costumam estar bem acima. Varejo de conveniência e serviço local, bem abaixo.
Cenários para 2027
Não gosto de previsão, mas planejamento exige alguma hipótese. Trabalho com três cenários e uma postura que serve para os três.
Cenário conservador. O canal estabiliza entre 1% e 2% do tráfego total. A busca tradicional continua dominante, e IA vira mais um ponto de contato. Nesse mundo, quem investiu pesado em GEO como disciplina separada desperdiçou recurso, e quem tratou como critério adicional de qualidade saiu bem.
Cenário intermediário. Entre 5% e 10%, com concentração em determinadas categorias de consulta, especialmente pesquisa complexa e comparação. A busca tradicional segue relevante para navegação e transação. É o cenário que me parece mais provável.
Cenário agressivo. Acima de 15%, com mudança estrutural no comportamento de descoberta. Nesse caso, a distribuição de visibilidade passa a depender fortemente de acordo comercial e licenciamento, tema que levanto em Cloudflare e o bloqueio de crawlers, e o SEO como meritocracia imperfeita fica mais ameaçado.
A postura que funciona nos três é a mesma, e é por isso que não perco muito tempo escolhendo entre eles: fundamentos técnicos sólidos, conteúdo com algo próprio, entidade bem definida e medição funcionando. Nenhum desses investimentos vira desperdício em nenhum dos cenários, o que é uma característica rara em decisão sob incerteza.
Conclusão
Se eu tivesse que resumir em uma frase para um diretor de marketing: o canal ainda é pequeno, cresce rápido, converte melhor, e o trabalho para ganhar nele é quase o mesmo que você já deveria estar fazendo.
O que não recomendo é a reação extrema em qualquer direção. Reestruturar a operação inteira em torno de 0,3% do tráfego é exagero. Ignorar um canal que multiplicou por 16 em dois anos e converte várias vezes melhor é míope. O meio-termo é chato de vender em palestra e é o que funciona.
A parte prática desse trabalho está em GEO, e a medição em BI e inteligência de dados.