O que foi o update
Início confirmado em 24 de junho de 2026, conclusão em 26 de junho. Pouco mais de dois dias, global, em todos os idiomas. A descrição oficial falava em update de spam normal, refinando sistemas de detecção que já existiam, com destaque para o SpamBrain.
Rollout curto é a assinatura de update de spam. A mecânica é diferente do core: enquanto o core reavalia como o Google entende qualidade e relevância de forma ampla, o update de spam aplica classificadores a um conjunto de páginas e domínios. Mais cirúrgico, efeito mais rápido, diagnóstico mais fácil.
Spam update x core update
Confundir os dois leva a plano de ação errado, e vejo isso com frequência. A distinção prática:
- No core update, o Google reavalia a régua para todo mundo. Você pode cair sem ter feito nada errado, só porque outra página passou a servir melhor àquela intenção. Recuperação vem no próximo core. Foi o caso do core update de maio.
- No update de spam, o sistema identificou violação de diretriz. Você caiu porque algo cruzou uma linha. A recuperação depende de remover a causa, e pode voltar em rodadas de reprocessamento, sem precisar esperar o próximo update anunciado.
- Na ação manual, um revisor humano avaliou e aplicou sanção. Isso aparece no Search Console, em Segurança e ações manuais, e exige pedido de reconsideração. Se não tem aviso lá, não é ação manual.
Primeiro passo, sempre: abra Segurança e ações manuais no Search Console. Trinta segundos, e você elimina uma hipótese inteira. Se está limpo, você está lidando com algoritmo, e pedido de reconsideração não vai a lugar nenhum.
O que o SpamBrain pega
O SpamBrain é o sistema de machine learning que o Google usa para detecção de spam desde 2018, e ele já cobre bem mais que keyword stuffing. Os padrões que mais aparecem nos casos que analiso:
Conteúdo em escala sem valor agregado
Categoria que explodiu com a popularização de IA generativa, e onde mora a maior confusão do mercado. Preste atenção no que a diretriz diz de verdade: o problema não é usar IA. O problema é publicar em escala conteúdo cuja função principal é manipular ranking, sem nada que justifique a existência daquela página.
Um texto gerado com IA, revisado por quem entende do assunto, com dado próprio e ponto de vista, não é spam. Trezentas páginas de "melhores X para Y" montadas por template, todas iguais, são. A diferença não está na ferramenta.
Esquemas de link
PBN, troca sistemática, link pago sem rel="sponsored", guest post em rede de sites satélite. Na maioria dos casos o SpamBrain neutraliza o link em vez de penalizar o destino. Isso significa que você perde o valor que achava que tinha, e a queda parece inexplicável, porque nada visivelmente aconteceu com o seu site.
Abuso de reputação de domínio
Seção de terceiro hospedada num domínio forte para aproveitar a autoridade dele. O clássico é cupom ou cassino dentro de portal de notícia. Continua entre os alvos prioritários.
Páginas de porta e conteúdo raspado
Variação de cidade gerada em massa sem diferença real, e material de terceiro reescrito por cima.
Como saber se atingiu você
- A janela. A queda precisa começar entre 24 e 27 de junho. Fora disso, procure outra causa.
- Ações manuais no Search Console. Limpo? Segue.
- O perfil da queda. Update de spam costuma derrubar um conjunto identificável: um diretório inteiro, um tipo de página, ou o site todo de uma vez. Queda difusa e proporcional em tudo tem mais cara de core update.
- Auditoria de backlinks dos últimos 12 meses. Anchor exato repetido, domínio sem tráfego real, rede com o mesmo layout. Esses sinais são bem visíveis quando você procura.
- Auditoria do conteúdo publicado em escala. Liste o que saiu nos últimos meses e faça uma pergunta por página: isso existiria se busca não existisse?
O que fazer
Update de spam é um dos poucos cenários em que a recuperação depende quase inteiramente de você, e por isso é mais previsível que um core update. O que resolve:
Remova a causa, não o sintoma. Desindexar as páginas afetadas sem mudar o processo que as gerou só adia o problema para o próximo trimestre.
Em links, tente remoção real antes de partir para o disavow. O disavow é rede de segurança para o que não dá para remover, não o primeiro recurso. Vejo muita gente subir arquivo de disavow com 4 mil domínios e chamar isso de limpeza.
Em conteúdo, consolide e aprofunde. Vinte páginas raquíticas sobre o mesmo tema viram três boas.
Documente tudo com data. Se em algum momento isso virar ação manual, você vai precisar mostrar o que fez e quando, e memória não conta como prova.
E tenha paciência com o reprocessamento. O sistema precisa recrawlear e reavaliar. Semanas, não dias.
A pergunta que resolve a maior parte dos casos de spam algorítmico: se o Google não existisse, essa página teria sido publicada?
IA e a diretriz de conteúdo, sem meio-termo
Esse é o ponto onde vejo mais confusão em reunião, e vale gastar espaço nele.
A diretriz do Google sobre spam de conteúdo não menciona ferramenta. Ela descreve intenção e resultado: conteúdo produzido em escala cuja função principal é manipular ranking, sem valor para quem lê. O texto vale igualmente para conteúdo gerado por IA, escrito por freelancer mal pago, ou montado com fiação de artigos antigos.
Na prática, uso quatro perguntas para classificar uma página como segura ou arriscada:
- Alguém revisou com conhecimento do assunto? Revisão de forma não conta. Revisão que corrige um erro factual, sim.
- Tem algo que não estava em nenhuma outra página? Dado, experiência, opinião assumida, exemplo específico.
- A página seria publicada se busca não existisse? A pergunta mais direta.
- Quem assina? Conteúdo em escala sem responsável tem um perfil de risco diferente.
Se três das quatro respostas forem ruins, a página é candidata a problema, independentemente de como foi produzida.
Onde vejo IA sendo usada bem: primeira versão de texto sobre tema que o time domina, estruturação de material que já existe internamente, tradução com revisão técnica, e resumo de documento longo. Onde vejo dar errado: pauta definida por ferramenta de volume, texto publicado sem leitura humana, e a variação em massa de uma mesma página trocando cidade ou produto.
Um sinal que costuma passar despercebido: se o seu volume de publicação multiplicou por cinco em três meses sem que o time tenha crescido, existe um risco a ser avaliado, mesmo que cada peça pareça razoável isoladamente.
Auditoria de links na prática
A parte de links é onde mais se perde tempo com o método errado. O caminho que uso:
Junte as fontes
Exporte os links do Search Console e de pelo menos uma ferramenta de terceiro. O Search Console mostra o que o Google conhece, o que é o dado que importa, mas com amostragem. Ferramenta de terceiro dá volume e contexto.
Classifique por origem, não por métrica de autoridade
Índice de autoridade de ferramenta é uma estimativa e não diz nada sobre risco. O que diz:
- Como o link foi adquirido. Se você não sabe, é bandeira amarela. Se você sabe que foi comprado ou trocado, é vermelha.
- O site tem audiência real? Tráfego orgânico próximo de zero num domínio que publica cem artigos por mês é rede.
- O contexto faz sentido? Link de um site de receitas para uma empresa de logística não tem razão editorial.
- O padrão de anchor. Distribuição natural tem muita marca, muita URL nua e pouca frase exata. Concentração em anchor exato é assinatura de aquisição artificial.
Remoção antes de disavow
Contate quem controla o link e peça remoção. Documente as tentativas com data. O disavow entra depois, para o que não teve resposta ou não pode ser removido.
E um alerta que vale repetir: disavow é ferramenta afiada. Já vi arquivo com domínios excelentes dentro, subido por alguém que classificou tudo abaixo de um índice arbitrário como tóxico. O prejuízo demorou meses para ser revertido.
Como não passar por isso de novo
Três práticas que reduzem bastante a chance de ser atingido em update de spam:
Registro de aquisição de links. Uma planilha simples com data, URL, como foi conseguido e quem aprovou. Parece burocracia até o dia em que você precisa auditar dois anos de trabalho de três agências diferentes.
Critério editorial escrito. Uma página interna definindo o que o time publica e o que não publica. Sem isso, a decisão fica com quem tem meta de volume.
Alerta de mudança de perfil. Monitoramento que avisa quando o número de domínios referenciadores salta de forma anômala. Crescimento súbito de links que você não solicitou pode ser ataque, ou pode ser uma agência fazendo algo que ninguém autorizou.
É o tipo de estrutura que monto junto do trabalho de link building e digital PR, e que faz diferença justamente nos meses em que nada está acontecendo.
Conclusão
O update de junho não trouxe regra nova. Trouxe execução melhor de regra que já existia. Para quem produz conteúdo com critério e adquire link por mérito editorial, foi um não evento. Para quem estava operando na zona cinzenta, foi a conta do risco chegando.
Se o seu site caiu nessa janela e você não tem clareza sobre a causa, esse é exatamente o trabalho de recuperação de penalidades: separar o que é algoritmo do que é violação, e atacar a causa certa em vez de mexer em tudo.